Dia do Trabalho: do direito ao sentido

trabalho, medicina e carreira

Quando trabalhar deixa de ser só trabalhar

Durante muito tempo, trabalhar significava estabilidade. Ter um emprego, garantir renda e construir uma carreira previsível eram os principais objetivos.

Hoje, para muitas pessoas, isso já não é suficiente.

Há cerca de três anos, minha forma de enxergar a vida profissional começou a mudar profundamente. Essa transformação começou quando me permiti olhar para além da medicina.

Comecei com um curso de finanças. Foi ali que tive meu primeiro contato com o universo do marketing digital. A partir disso, percebi que o conhecimento pode ser amplamente compartilhado e valorizado, e que o exercício profissional não precisa, necessariamente, seguir um único modelo.

Sempre tive uma inquietude em relação à minha trajetória profissional. Dentro do cenário desafiador das grandes empresas que passaram a dominar a área da saúde em Salvador nos últimos anos, comecei a me questionar sobre minhas perspectivas de carreira, meu futuro e até onde aquele caminho poderia me levar.

Isso despertou em mim a vontade de ampliar meu olhar. Foi nesse movimento que ingressei em um curso de inovação e empreendedorismo em saúde.

A pergunta passou a ser inevitável: ainda faz sentido permanecer no modelo tradicional de trabalho?


Do direito ao sentido

O 1º de maio surgiu a partir de um movimento histórico. Em 1886, trabalhadores em Chicago organizaram uma greve geral em busca de melhores condições de trabalho. Esse episódio ficou conhecido como Haymarket Affair.

Naquele momento, a luta era por direitos básicos.

Se antes a discussão era sobre carga horária, condições de trabalho e justiça social, hoje ela se desloca. Não é apenas sobre quanto trabalhamos, mas sobre porque e para que trabalhamos.


Uma mudança silenciosa, mas profunda

Vivemos uma das maiores mudanças comportamentais das últimas décadas.

Dados mostram que apenas cerca de 23% das pessoas se sentem engajadas no trabalho, enquanto aproximadamente 73% desejam maior flexibilidade. Esses números revelam algo importante. O problema já não é apenas estrutural. É de significado.

Tempo e autonomia passaram a ter um valor central.

A pandemia teve um papel importante nesse processo. Quem acredita que esse período ficou para trás talvez ainda não tenha percebido um dos seus efeitos mais profundos. O aumento do burnout e o crescimento das demissões voluntárias após esse período mostram uma mudança clara de mentalidade.

As pessoas não estão apenas buscando trabalhar menos. Estão buscando trabalhar com mais sentido.


O trabalho deixou de ter um único formato

Com o avanço da tecnologia, o fortalecimento do home office durante a pandemia e o acesso contínuo à informação, ficou evidente que o trabalho pode ser mais flexível e adaptável do que imaginávamos.

A pandemia acelerou essa mudança e mostrou que o modelo tradicional não era o único possível.

Hoje já falamos sobre desenvolvimento de múltiplas habilidades, transições de carreira ao longo da vida e o conceito de lifelong learning, a busca contínua por aprendizado.

Cada vez mais vemos profissionais com trajetórias não lineares. Pessoas que não são uma única coisa ao longo da vida, mas que transitam entre diferentes papéis.


O momento em que me reconheci nessa mudança

Foi nesse contexto que me reconheci.

Ao consumir conteúdos de outras áreas como marketing digital, comunicação, inovação em saúde, tecnologia e finanças, percebi um mundo para o qual não somos preparados durante a formação médica.

À medida que fui me aprofundando nesses temas, minha forma de pensar a carreira começou a mudar. Fui quebrando preconceitos e entendendo que estamos diante de uma nova realidade, na qual adaptação deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade.

Hoje tenho consciência de que estou médica, mas isso não define todas as possibilidades da minha trajetória.

A medicina faz parte de quem sou, mas não limita quem posso me tornar.

Talvez você também já tenha se perguntado se o seu trabalho ainda faz sentido da forma como está hoje.


Trabalho e vida já não são mais separados

Confesso que ainda é estranho sustentar essa nova visão quando o modelo tradicional ainda está tão presente na nossa rotina.

No entanto, recentemente, assisti a uma reportagem apresentada por William Bonner no Globo Repórter que retratava exatamente esse movimento. Pessoas com suas carreiras consolidades ou com sua formação base trocando sua área de atuação e se vendo realizadas dentro do novo desafio. 

Sair dessa zona de conforto não é simples. Existe medo de errar, insegurança em relação ao futuro e a sensação constante de incerteza. Ao mesmo tempo, há empolgação e curiosidade.

É como pisar em uma areia movediça.

A única certeza é que precisamos continuar em movimento.

Esse é um movimento coletivo que mostra que não queremos mais separar “vida profissional” de “vida pessoal” como se fossem coisas distintas.

Somos um só.

E, para que isso funcione, trabalho, valores e propósito precisam estar alinhados.


O verdadeiro significado do trabalho hoje

O Dia do Trabalho continua sendo uma data importante para lembrar conquistas históricas e valorizar o trabalhador.

Mas hoje ele representa algo a mais.

Talvez a principal reflexão já não seja apenas sobre direitos, ainda que isso seja extremamente importante dentro da nossa realidade.

Mas, é também sobre sentido.

Mais do que trabalhar, estamos tentando entender como viver através do que fazemos.

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