É possível ter falta de ferro mesmo sem ter anemia. Entenda o que a ferritina baixa pode significar, quais sintomas podem aparecer e por que descobrir a causa é tão importante quanto repor o ferro.
É possível ter deficiência de ferro sem ter anemia. E, muitas vezes, a ferritina é um dos primeiros exames a mostrar que algo não está bem.
No meu dia a dia como hematologista, recebo muitos pacientes que apresentam cansaço, fraqueza, queda de cabelo, unhas mais frágeis ou dificuldade para realizar suas atividades habituais, mesmo sem anemia no hemograma.
E uma dúvida aparece com frequência: se eu não tenho anemia, como posso estar com falta de ferro?
Para entender isso, primeiro precisamos separar duas situações que parecem iguais, mas não são: ter deficiência de ferro e ter anemia por deficiência de ferro.
É possível ter falta de ferro sem anemia?
Sim.
A falta de ferro, que também chamamos de deficiência de ferro ou ferropenia, pode existir enquanto a hemoglobina ainda está normal.
Em geral, consideramos anemia quando a hemoglobina está abaixo de 12 g/dL em mulheres adultas não gestantes e abaixo de 13 g/dL em homens adultos. Existem algumas situações em que esses valores precisam ser interpretados de maneira diferente, mas eles servem como referência para entendermos o conceito.
Na deficiência de ferro sem anemia, a hemoglobina ainda está normal, mas os estoques de ferro do organismo já começaram a diminuir.
Na verdade, antes de surgir uma anemia por falta de ferro, a deficiência de ferro já estava presente.
Então, o que significa ter ferritina baixa?
Podemos pensar no ferro como um estoque.
Nosso organismo precisa de ferro para várias funções, entre elas a produção das células vermelhas do sangue, as hemácias. Para garantir que exista ferro disponível quando necessário, parte dele fica armazenada no organismo.
A ferritina nos ajuda justamente a avaliar esse estoque.
Imagine uma despensa. Antes de faltar alimento para preparar uma refeição, as prateleiras começam a esvaziar. Com o ferro acontece algo semelhante.
Primeiro, diminuem as reservas. Se a falta de ferro continuar, chega um momento em que o organismo não tem mais quantidade suficiente para produzir adequadamente a hemoglobina. É quando a anemia pode aparecer.
Em geral, uma ferritina abaixo de 30 ng/mL pode indicar que os estoques de ferro estão baixos. Mas existe um detalhe importante: esse número não deve ser interpretado sozinho.
Algumas doenças, infecções e processos inflamatórios podem aumentar a ferritina. Nesses casos, ela pode parecer normal ou até elevada mesmo quando existe falta de ferro.
Por isso, dependendo da situação, precisamos analisar outros exames relacionados ao ferro, como a saturação de transferrina, sempre em conjunto com a história do paciente.
Ferritina baixa pode causar sintomas mesmo sem anemia?
Pode.
Algumas pessoas com deficiência de ferro, mesmo sem anemia, podem apresentar:
- cansaço;
- fraqueza;
- dificuldade de concentração;
- queda de cabelo;
- unhas mais frágeis.
Mas existe um ponto importante: esses sintomas não acontecem apenas na falta de ferro.
Cansaço e queda de cabelo, por exemplo, podem ter diversas causas. Por isso, não devemos olhar uma ferritina baixa e concluir automaticamente que ela explica tudo o que o paciente está sentindo.
É justamente aí que entra a avaliação médica.
O que acontece se a falta de ferro não for tratada?
Se os estoques de ferro continuarem diminuindo, pode chegar um momento em que a medula óssea, que funciona como nossa “fábrica do sangue”, fica sem matéria-prima suficiente para produzir adequadamente as hemácias.
A hemoglobina então começa a cair e pode surgir a anemia por deficiência de ferro, também conhecida como anemia ferropriva.
Identificar a deficiência de ferro antes dessa fase permite intervir mais cedo. Mas não basta simplesmente repor o ferro. Precisamos descobrir por que ele está faltando.
Por que a ferritina pode ficar baixa?
Existem diferentes razões para uma pessoa desenvolver deficiência de ferro.
Uma das mais comuns é a perda de sangue. Mulheres com fluxo menstrual intenso, por exemplo, podem perder ferro continuamente. Sangramentos pelo estômago ou intestino também podem causar deficiência e precisam ser investigados em determinadas situações.
Outra possibilidade é a dificuldade de absorver o ferro. Isso pode acontecer após algumas cirurgias bariátricas ou em doenças como a doença celíaca.
Também podemos encontrar uma alimentação com quantidade insuficiente de ferro, principalmente quando existem outros fatores associados.
Há ainda períodos em que nosso organismo simplesmente precisa de mais ferro, como durante a gestação e o crescimento na infância.
Algumas doenças podem envolver mais de um desses mecanismos. Por isso, pacientes diferentes com a mesma ferritina baixa podem precisar de investigações completamente diferentes.
Ferritina baixa não encerra a investigação. É o começo.
Esse é provavelmente o ponto mais importante.
Encontrar uma ferritina baixa responde a uma pergunta: o estoque de ferro pode estar reduzido.
Mas imediatamente surge outra: por quê?
Uma mulher com menstruação intensa, uma pessoa que realizou cirurgia bariátrica e um homem adulto com deficiência de ferro, por exemplo, não devem necessariamente seguir a mesma investigação.
Por isso, o diagnóstico não deve ser baseado apenas em um número no exame. Precisamos olhar o hemograma, a ferritina e, quando necessário, outros exames. Mas também precisamos conhecer os sintomas, a alimentação, o histórico de saúde, possíveis sangramentos e outros fatores de risco.
O tratamento também não é igual para todos. A forma de repor o ferro depende da causa da deficiência, da intensidade da falta de ferro, dos sintomas e das características de cada paciente.
Mais importante do que simplesmente aumentar a ferritina é entender por que ela ficou baixa.
É essa resposta que permite tratar a deficiência de ferro de maneira adequada e reduzir o risco de que o problema volte a acontecer. O papel da avaliação médica é entender o que levou a esse resultado e definir o melhor caminho para cada paciente.


