Um olhar da prática hematológica sobre reconhecimento da leucemia aguda, tratamento e como a doação de medula óssea salva vidas
Uma sexta-feira que nunca esqueci
Durante a residência em hematologia, fui certa vez para a Unidade de Emergência do hospital. Lembro bem que era uma sexta-feira pela manhã. Naquele dia, eu tinha ambulatório programado, mas havia recebido o aviso sobre uma paciente internada com anemia e plaquetopenia graves, além de discreto aumento de leucócitos, com suspeita de leucemia aguda.
Fui prontamente ao hospital para conversar com a paciente sobre a possibilidade diagnóstica. Conversas difíceis. Um desafio que permanece até hoje na minha prática. Além disso, realizei o mielograma, exame em que avaliamos o sangue proveniente da medula óssea, a nossa fábrica do sangue.
Após o procedimento, corri para o outro hospital, indo direto ao consultório com as lâminas nas mãos. Entreguei o material à minha preceptora na época, que seguiu para o laboratório para analisar a lâmina. O diagnóstico se confirmou. Tratava-se de uma leucemia aguda, mais especificamente uma Leucemia Promielocítica Aguda.
Uma doença grave, mas com chance de cura
A Leucemia Promielocítica Aguda é um subtipo associado a alto risco de sangramento, mas também apresenta grande chance de resposta ao tratamento e possibilidade de cura quando diagnosticada precocemente.
De forma imediata, iniciamos a medicação específica para aquela condição, conseguindo controlar a doença. Naquele momento, tivemos algo fundamental. Diagnóstico e intervenção precoces. E é exatamente sobre isso que se trata o Fevereiro Laranja.
O que é o Fevereiro Laranja
O Fevereiro Laranja é o mês dedicado à conscientização sobre a leucemia e a doação de medula óssea. A leucemia é uma doença grave que acomete a medula óssea e pode atingir crianças, adultos e idosos, com maior incidência em pessoas acima de 60 anos.
Quando falamos em leucemia neste contexto, é importante destacar principalmente as leucemias agudas. São doenças de evolução rápida, abrupta e imprevisível. Podem acontecer comigo, com você, com qualquer pessoa. Fazem parte daquelas situações da vida que simplesmente surgem, sem aviso prévio.
Leucemia aguda no Brasil: desafios reais
Estima-se que mais de 10 mil novos casos de leucemia sejam diagnosticados todos os anos no Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). No entanto, nem todos os pacientes conseguem receber tratamento adequado.
Isso ocorre por diversos motivos. Falta de reconhecimento precoce, indisponibilidade de leitos, desigualdade de acesso aos serviços de saúde, distribuição desigual de centros especializados no país, condições clínicas graves que impossibilitam o tratamento.
A leucemia aguda é uma doença que exige atenção imediata e estratégias bem definidas para garantir tratamento precoce. Esses pacientes apresentam sistema imunológico comprometido, risco elevado de infecções graves, sangramentos devido à plaquetopenia e anemia que frequentemente exige suporte transfusional adequado.
Quando o transplante de medula óssea se torna essencial
Nem sempre o tratamento quimioterápico isolado é suficiente para alcançar a cura. Em muitos casos, é necessário associar o transplante de medula óssea alogênico, que pode ser aparentado ou não aparentado.
Para alguns pacientes, o transplante representa a única possibilidade de cura. E, de fato, ele salva vidas.
Como funciona a doação de medula óssea
Para se tornar doador de medula óssea, a pessoa deve realizar um cadastro no hemocentro de sua cidade. Nesse momento, é coletada uma amostra de sangue, semelhante a uma coleta laboratorial comum. Esses dados são então inseridos no banco nacional de doadores de medula óssea, o REDOME, um dos maiores do mundo.
O processo funciona de forma contínua. O banco de dados de doadores é cruzado com o banco de pacientes que necessitam de transplante. Quando um paciente com leucemia, por exemplo, é cadastrado como receptor, o sistema compara automaticamente as informações de tipagem HLA de doadores com o do receptor.
Quando há compatibilidade total ou muito próxima, o sistema emite um alerta. Essa compatibilidade é confirmada posteriormente com exames adicionais e avaliações clínicas, tanto do possível doador quanto do paciente receptor.
É importante reforçar que a chance de compatibilidade não é alta. Por isso, quanto mais pessoas cadastradas, maiores são as chances de encontrar um doador compatível. Atualmente, doadores aparentados são cada vez mais utilizados por apresentarem maior probabilidade de compatibilidade, mas a doação não aparentada continua sendo essencial.
Segurança para quem doa
Antes da doação, o doador passa por avaliação clínica e laboratorial rigorosa para garantir que o procedimento seja seguro. A doação de medula óssea pode ocorrer de duas formas.
Uma delas é pela coleta de células-tronco do sangue periférico por meio de uma máquina de aférese, semelhante às utilizadas em diálise. A outra é a coleta direta da medula óssea a partir do osso da bacia, realizada em ambiente hospitalar, com sedação, garantindo que o doador não sinta dor ou desconforto.
Após a coleta, o material é preparado e infundido no paciente receptor, oferecendo a ele uma nova chance de cura.
Conscientizar é salvar vidas
Já vi muitas vidas serem salvas por meio do transplante de medula óssea. Em muitos casos, ele representa a única chama de esperança diante de uma doença tão grave quanto a leucemia aguda.
O Fevereiro Laranja reforça algo que deve nos manter atentos o ano inteiro. Anemia, plaquetopenia e alterações nos leucócitos não devem ser banalizadas. Precisam ser investigadas. Procure um médico, de preferência um especialista.
E, ajude a salvar vidas. Seja um doador de medula óssea.


